Exposição de Motivos (ou Por que, oras bolas, criar esse blog?):
Da vocação:
Quando eu saí da Faculdade de Direito já sabia o que eu queria: ser juíza. Mas, naquele tempo (é... já faz bastante tempo) eu, então com 2 filhos, separada do primeiro marido, não podia me dar ao luxo de "só" estudar. Fui tratar de ganhar a vida, de dar conta das contas, e o melhor caminho para quem está começando uma carreira jurídica é esse: conseguir a aprovação no famigerado exame da Ordem (dos Advogados do Brasil), montar um escritório (normalmente em sociedade) e começar a batalhar uma batalha sem fim, sem descanso, sem dó nem piedade.
Posso me considerar uma sortuda pois tive a oportunidade de começar a lecionar e, se a advocacia era uma necessidade, o magistério sempre foi um imenso prazer! Sem contar que eu tinha que estudar para trabalhar, o que não é a regra entre advogados, juízes, delegados e promotores, lamentavelmente...
Só muito recentemente aquela ideia inicial (ser juíza) passou do projeto para a realização. Situações de vida me levaram a um ponto em que me preparar para a magistratura deixou de ser potência para se tornar ato.
De março para cá, então, eu "só" estudo. "Só", sim. Sempre entre aspas.
Acontece que ao longo de 18 anos eu deixei de acreditar que alguém que se torna juiz é um iluminado, um sujeito diferenciado, acima dos demais não por ser magistrado, mas simplesmente porque conseguiu passar no concurso. A advocacia, o magistério e a vida me mostraram que muitos, muitos, muitos juízes não só não são iluminados como, bem ao contrário, são a verdadeira "encarnação" da ignorância. Isso ficou muito claro quando surgiu a oportunidade de assessorar um desembargador do TJ/PR que, já na segunda década do século XXI gostava de dizer, com o peito estufado tal e qual uma pomba, "não quero ouvir, nesse gabinete, sobre essa modinha de 'flexibilização do
pacta sunt servanda'. Não quero saber dessas novidades desse tal Código (Civil) novo". E o sujeito [desembargador!!!] passava as tardes (enquanto os assessores - bitolados, incapazes de qualquer reação - faziam os votos) escolhendo a cor do seu novo Porshe Cayenne. Passei a me questionar: por que não eu?? Eu, que estudo? Eu, que penso? Eu que sou amante das reflexões sobre as grandes questões da humanidade?? Eu que, mesmo precisando pagar as contas não sou capaz de um truquezinho qualquer?? Eu que, acima de tudo, tenho um baita senso de justiça???
E, assim, me matriculei num curso preparatório para a magistratura federal dedicando (sacrificando?) todas as minhas noites do ano de 2013 a uma perfunctória revisão do Direito.
Da proposta do blog:
Eu tenho uma colega de magistério que ama fotografia. Ano passado ela criou (e executou) o projeto .365. Por 365 dias ela postou, no facebook, fotos do seu cotidiano. Foi muito bacana ver o dia-a-dia de qualquer pessoa pelas lentes da Beth. A gente (eu??) se acha tão desinteressante, tão comum, tão sem sal que perceber que a vida de todo mundo é bem parecida e que a graça está na lente que você usa para captar cada momento foi uma descoberta fantástica.
Bom, o caso aqui é um pouco diferente, mas tenho que mencionar a inspiração dessa colega pois a minha não é exatamente uma ideia original. Alguém sempre está fazendo um diário sobre alguma coisa e, na maioria das vezes, ninguém se interessa pelo que realmente importa para os outros, mas eu sou professora, e esse é um vício do qual eu não pretendo me curar...
Se pretendo escrever sobre a minha rotina nesse momento de preparação é porque acredito que a minha determinação, a minha motivação, as minhas dores/dificuldades e vitórias possam servir a outros que, eventualmente, pretendam seguir o caminho rumo ao serviço público. Espero, sinceramente, que outros possam compreender que o caminho para a realização de qualquer sonho ou objetivo não se representa em todos os casos por uma estrada reta e plana (até porque estas, quanto mais longas, mais enfadonhas são), mas por uma trilha sinuosa, acidentada, incerta, cheia de perigos e surpresas que, invariavelmente, tem como maior obstáculo nós mesmos, nossos medos, nossas fraquezas, nossa "programação default" que temos que ajustar. Assim como fui inspirada, pretendo também inspirar.
Do nome do blog:
Outra vez não há nada de original. Foi uma inspiração. Primeira aula de processo penal do tal curso preparatório e a professora (a quem tenho a honra e o prazer de receber como amiga) Bianca Arenhart - juíza federal, linda, novinha de tudo mas já com uma bagagem de 12 anos de magistratura - resolve fazer uma fala motivacional. Ao sugerir como se deveria dar o estudo ela diz algo assim: "Chegue em casa hoje e diga para a sua família: 'eu sou uma louca!! Eu escolhi a carreira que depende da aprovação no concurso mais difícil do País!!'". E toda vez que a peteca está caindo eu me lembro exatamente disso: "EU SOU UMA LOUCA!! EU ESCOLHI A CARREIRA JURÍDICA QUE DEPENDE DA APROVAÇÃO NO CONCURSO MAIS DIFÍCIL DO PAÍS!". E lá se vão embora o cansaço, o desânimo, a vontade de ficar na cama ruminando acontecimentos infelizes e pessoas desimportantes.
EU SOU UMA LOUCA!! eu abdico de momentos familiares, de eventos sociais, de toda sorte de compromissos para estudar. Eu digo não quando me pedem companhia, eu durmo mal porque o melhor horário para estudar é quando os outros estão dormindo, mas quando eu preciso dormir eles estão acordados... eu como mal, eu larguei o ballet, o tenis e, ao que parece, quando o meu objetivo se concretizar, precisarei urgentemente de um spa, tenho mantido a minha saúde no limite do necessário para seguir em frente, mas... eu tenho certeza que é uma questão de tempo. Quanto tempo eu não sei precisar, mas o blog vai nos contar...
Dia 1 - "Só"!
Não é exatamente o dia 1. É o primeiro dia dos registros!
O dia 1 aconteceu em 5 de março de 2013, primeiro dia do curso preparatório que está por uma semana para terminar, então vou, já, com 8 meses de estudos. "Só" estudos.
A palavra "só" em si representa uma injustiça. Quando dizemos "só" temos a tendência de limitar o contexto de forma pejorativa, como se fosse pouco. "Então você "só" dá aula??". "Só!!????". Como quem diz: "Nossa! Que coisa mais sem importância"; "Então você "só" estuda??".
Vamos analisar o "só":
Sim! Eu "só" estudo! É uma limitação à toda a minha vida. Eu não trabalho, mas tenho que comer e dar de comer a 3 filhos. De onde vem os recursos? Ah, sim... eu tenho trabalhado por toda a minha vida para, hoje, "só" estudar.
Sim! Eu "só" estudo! São 12,16,18 horas de estudos diários entre leituras de manuais jurídicos, análise de repertório de jurisprudência, acompanhamento das últimas notícias dos Informativos do STF, STJ e Planalto (você quer saber quais leis entraram em vigor no dia 13 de novembro? Pergunte prá mim??), realização de provas passadas e as aulas do preparatório... Você que bate ponto e cumpre uma jornada de 40 horas semanais não trabalha tanto quanto eu ou quanto qualquer um que se dedique a um concurso desse porte.
Sim!! Eu "só" estudo! Isso significa que eu não vou a shoppings, shows, festas de aniversário, barzinhos, encontros de amigos... não brinco com a minha filha pequena, não pego um cinema com os maiores, não tenho namorado... é isso mesmo!! A minha vida é um marasmo total! Ok, ok... de vez em quando, lá mto de vez em qdo, a gente dá uma paradinha nos estudos prá manter a vida e a sanidade mental, mas ordinariamente a rotina é essa: estudar, estudar, estudar, estudar e, qdo estiver bem cansada de estudar, então a gente lê os informativos do STF.
Sim! Eu "só" estudo!! Quem mais começaria um blog que se pretende um diário de estudos num sábado, 16 de novembro, ou seja, bem no meio do feriadão?? É isso mesmo que você, leitor, pensou: alguém que não tem mais o que fazer senão estudar. Não importa se é sábado, domingo, feriado, se chove ou se faz sol!
"..."
Mas que raios!! Já faz uma hora que estou montando o blog, configurando perfil, escolhendo design, redigindo essa postagem... e o Manual de Processo Civil está aqui me esperando, aberto e já me olha com ar de reprovação...
Dica que aprendi recentemente: Mantenha um ritmo de leitura de 120 laudas por dia, um manual por semana... serão 4 ciclos para cada manual... mais ou menos 2 anos e meio de leituras, fora todo o resto...
Vamos lá, então, "só" estudar...